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Sedução do samba
O que nos seduz no samba? Talvez alguma coisa em nуs se sinta repentinamente espelhada e refletida na hesitaзгo da ginga, no inesperado da danзa, na malнcia do verso, na indefiniзгo entre alegria e tristeza, entre choro e riso, entre misйria e opulкncia, entre prazer e dor. Nгo existe um ъnico modelo do que seja samba e muitas sгo as manifestaзхes ligadas a ele (samba de roda do recфncavo baiano, samba rural de Pirapora, desfiles de carnaval, rodas de pagode, samba de terreiro, etc), muitas as instrumentaзхes e tessituras da mъsica “classificada” sob aquela rubrica. A cuнca, por exemplo, encerra nas suas caracterнsticas funcionais toda a problemбtica do samba, pois, umas vezes, ela chora, lamenta e imprime uma cadкncia melancуlica a um samba predominantemente percussivo, outras, ela ri, debocha entrando e saindo da mъsica pelas brechas do ritmo, conferindo um aspecto descontнnuo, brincalhгo, saltitante, outras, por fim, ela apenas acompanha e sustenta o ritmo com seu toque tradicional (trкs graves e um agudo). Ela enfatiza a proximidade da alegria (riso) com a tristeza (lamento) e mostra que existe sempre algo da alegria na tristeza. Mas a pergunta nгo й melhor respondida dessa forma, ou seja, o que em tudo isso produz uma seduзгo tгo profunda?
Talvez a sua impureza hesitante e violenta, no ritmo, na etnia, no espaзo, coloque em movimento afetos (nossos afetos) nгo expressos de outra forma e assim as nossas dores, as nossas vergonhas, as raivas, ressentimentos e transfiguraзхes prуprias de uma sociedade, onde a mestiзagem deve ter um significado positivo, onde a indefiniзгo й tгo cotidiana e investida de caracterнsticas definidoras, que dessa forma o samba, por entrar em consonвncia com tudo isso, cria uma comunhгo tгo mais sedutora quanto heterogкnea й a sua composiзгo.
Para compreender como se dб esse processo em que se forma uma sensibilidade musical, por um lado, e em que se constitui uma forma distributiva de execuзгo da mъsica, cujo fio nгo estб em nenhum instrumento, pois todos eles acompanham, mas nгo reproduzem a mъsica, por outro, seriam necessбrias as contribuiзхes de psicуlogos, de antropуlogos, de historiadores e de filуsofos. Mas uma questгo atravessa toda a dimensгo do problema: saber quando e por que meios surge essa reaзгo afirmativa, esse ocultamento que desvela e trбs a tona uma confluкncia de manifestaзхes que, pouco tempo antes, estavam encerradas na senzala e classificadas genericamente de batuque.
Nгo й nenhuma novidade o fato de que o termo “escola” de samba tenha a intenзгo de se colocar, com ironia, com orgulho, como a “nossa” escola, onde se aprende samba, em detrimento da escola “deles”, onde se aprende a ler e a trabalhar. Essa posiзгo onde se vк a pressuposiзгo de uma outra escala de valores que confere significвncia atravйs de outros sentidos e permite a toda uma outra gama de manifestaзхes ganharem relevвncia (significвncia), se manifesta de muitas formas nas letras dos sambas: “o meu mestre foi Cearб / me ensino a toca samba/ nгo me ensino a trabalha”, diz Clementina; “nossos barracos sгo castelos / em nossa imaginaзгo”, diz Nelson Cavaquinho. Nesse sentido, a mъsica “Tipo zero” de Noel Rosa й bem significativa. Ela fala em segunda pessoa, oscilando entre elogio e ofensa, entre bom e mau humor, se referindo a uma pessoa que chama a atenзгo e que parece nгo ser do meio, mas que se confunde parcialmente. Devemos notar que ela se coloca de um ponto de vista onde aqueles valores estгo numa semi-visibilidade, pois enquanto Clementina e Nelson cavaquinho falam de uma outra gama de valores, Noel simula estar entre “eles” os que “sabem ler” e que, talvez por isso mesmo, Diz “vocк й um tipo que nгo tem tipo / com todo tipo vocк se parece / por ser um tipo que assimila tanto tipo / passou a ser um tipo que ninguйm esquece” e depois, na segunda estrofe, continua “quando vocк penetra no salгo / e se mistura com a multidгo / desconfiado todo mundo fica / que o seu tipo nгo se classifica / vocк passa a ser um tipo desclassificado”. No ponto de vista em que se coloca, ele sу pode ver aquele “tipo” como um nгo tipo, como algo que аs vezes parece se confundir com muitos outros tipos, e que outras vezes assimila e tem realmente algo de todos os outros tipos que ele nгo й, mas que, apesar da ausкncia de uma classe cognitivo-conceitual para capturб-lo em conceitos, ele nгo pode e nгo й confundido. Mas a ausкncia de classe, de uma classe prуpria nгo й evento de pouca importвncia, pois do problema teуrico da invisibilidade conceitual se passa a um problema moral, social, antropolуgico, da desqualificaзгo, da desclassificaзгo civilizatуria. Num repente o elogio se torna ofensa e a “desclassificaзгo” altera o sentido daquela “desconfianзa” teуrica em desconfianзa social e mesmo policial: toda uma problemбtica moral de uma sociedade excludente vem a tona.
Do ponto de vista que nos interessa, a nуs estudantes de filosofia, a cumplicidade entre uma indeterminaзгo e uma inadequaзгo teуrica, por um lado, e a desclassificaзгo moral, social e civilizatуria, por outro, se reveste de um interesse epistemolуgico particular. Talvez possamos arriscar que essa imaginaзгo particular, que vemos expressa nas letras de samba e que constrуi uma outra gama de valores, tenha a exata dimensгo do seu carбter onнrico, ou seja, saiba que ela precisa ser superada e objetivada em outros termos. Nгo mais valores escondidos, mas que possam ser ditos e desenvolvidos em pъblico e em voz alta. Para isso talvez devкssemos trazer essas coisas para a escola e inverter a frase “samba nгo se aprende na escola”. Quando se fala em cotas, por exemplo, o que estб em causa? A introduзгo dos portadores essenciais daqueles valores, daquelas formas. Nуs todos, do Rio Grande do Sul ao Amapб, adoramos o samba e muitas outras manifestaзхes e formas de ser e viver afro-descendentes, mas nгo seria de supor que existam corpos que possam manifestar com mais forзa e com maior vigor aquelas intenзхes, desvelando coisas invisнveis na cultura e na arte, por estarem mais preparados para encarnar aquelas manifestaзхes e, entгo, devemos encarar as cotas como uma questгo estratйgica para o nosso desenvolvimento espiritual e atй material? Quem sabe? Mas se nгo for tentado nunca se saberб...
Escrito por Paulo Pinheiro da Silva às 14h38
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A costa e o sertão
Depois de um ano em Caraguatatuba, litoral de São Paulo, acreditava que sabia o que era estar longe da capital paulista. Uma cidade pequena, com uma vida cultural acanhada, sem uma boa biblioteca, sem cinema, tendo locadoras com um acervo sofrível, seria o suficiente, acreditava eu, para mostrar o que era estar longe de São Paulo. Mas na verdade é necessário muito mais para nos afastar de São Paulo (capital). Mas o que é esse afastamento para quem, como eu, o sente. Não pode ser da mesma forma pra todo mundo! Mas o fato é que estando a 300 quilômetros da capital paulista se está mais longe dela do que estando a 3.600 só que para dentro, longe do mar.
A compreensão que se adquire é outra! Ao invés de me afastar de São Paulo, me aproximei de um humor de São Paulo. A capital paulista é na verdade, de muitos pontos de vista, a entrada para o sertão. O Brasil pode ser divido de muitas formas, dependendo dos filtros que se utiliza: racial, social, cultural, econômico, geográfico... Mas dois humores predominam desde a colônia: o litorâneo e o interiorano; a costa com sua sensualidade voltada para o porto; o sertão com sua dureza e seu alheamento. São Paulo não é tão distante do litoral, quando olhamos no mapa, mas devido à dificuldade de acesso a impressão que se tinha, durante a maior parte da sua história, era de completo isolamento. Por isso, muitos aspectos se entrelaçam: o humor retraído, uma violência latente, a dureza com as mulheres, uma desconfiança em relação aos espaços públicos, aos estrangeiros.
A cidade de São Paulo foi edificada num lugar tendo em vista a sua possibilidade de defesa. Mas parece que um humor permanece como um fundo granítico. As condições eram duras, não havia intercâmbio com o exterior, não havia sobras, nem opulência. O meio ambiente era alagadiço, pestilento, úmido e tortuoso. Os homens duros, as poucas mulheres que havia (de origem indígena, no início) recolhidas a uma vida doméstica dura. O temperamento áspero que se formou vem também das incursões pelo sertão, onde a dureza, a impiedade, a crueldade se mostravam como qualidades. Mas no trato social aparece uma introspecção que se mostra sonhadora que faz com que os sorrisos sejam raros e involuntários.
Durante algumas décadas, entre o começo do século até o fim da segunda guerra, parecia que esse estado de coisas iria mudar. A cidade é urbanizada e são civilizadas áreas antes impróprias pelo excesso de rios, riachos, terras alagadiças. Surge uma elite opulenta ligada ao plantio de café, a vinda de italianos e depois, a partir da metade do século, de nordestinos parecia ter soterrado aqueles humores antigos. Mas logo parece que a confluência do meio material, das condições econômicas, da reorganização da cidade, fazem (re) surgir aquela mesma dureza, aquele mesmo retraimento que se mostra pouco a vontade sob as atenções gerais.
A dureza de condições é substituída pela dureza da concorrência pela sobrevivência; a crueldade no sertão se transmuta em uma crueldade em relação ao fracasso; a impiedade bandeirante pela exaltação do sucesso. Existe algo de violento no interior do Brasil e essa violência me faz lembrar de algo de São Paulo. Da mesma forma que o Rio Grande do Sul, mesmo tendo um litoral, não deixa de exibir humores paulistas antigos, toda a ocupação que é distante do litoral tem algo da dureza de São Paulo. Quanto mais nos afastamos do litoral, mais encontramos o respeito, mesmo inconsciente, a uma forma como as coisas são em São Paulo. A disciplina no trabalho, a predileção por uma justiça sumária que puna os que não deram certo, uma timidez orgulhosa e ciosa de seu afastamento.
Mesmo sendo antiga, São Paulo tem uma relação umbilical com o Brasil mais novo, com as áreas que até pouco tempo eram pouco ou nada habitadas. As frentes pioneiras repetem muito do que era o movimento bandeirante. É um movimento eminentemente masculino, onde as mulheres adquirem um receio atávico de causar discórdia, entre homens capazes de tudo. Em São Paulo, até mesmo as escolas de samba nascem de famílias, mas famílias com a figura masculina encabeçando: existe até o relato de que no lugar de baianas havia grupos de homens vestidos de mulher e com porretes escondidos. Quando olhamos os desfiles em São Paulo, temos a impressão de que as pessoas não estão acostumadas e estar sob o olhar de todos, ou seja, os paulistanos não sabem sorrir na frente da câmara. Enquanto os cariocas e baianos são famosos por “já nascerem no palco”, ou seja, por saberem quase intuitivamente como se exibir e se tornarem alegres e leves quando festejam, os paulistas são freqüentemente flagrados com o rosto duro, como se estivessem sós, como se não fossem observados. As mulatas são belas, em São Paulo, mas não exibem aquela sedução natural da beira da praia, do porto, da sedução endereçada aos turistas.
Cada um com a sua forma, São Paulo e Rio criaram uma relação com o nordeste. No Rio predominaram os humores litorâneos, com as festas, os ritmos, o deboche, uma violência por excesso de vitalidade, mas também com um certo desleixo com o próprio desenvolvimento. Já em São Paulo, predomina um humor do sertão (até o clima se aproxima cada vez mais da aridez do sertão) com o olhar perdido e distante (como nos quadros do Hélio Mello) de quem está mais a vontade consigo mesmo, com um retraimento que explode quando é forçado demais na sua tolerância, com uma moral dura e com hábitos duros no viver, no morrer, no se divertir, mas que, por isso mesmo, ama e se seduz com o caráter lúbrico do litoral, compõem uma atmosfera sertaneja.
Mas o fato é que um pouco disso mora dentro de nós, nos nossos hábitos, na nossa sensibilidade. Mesmo que o litoral e os humores litorâneos sejam mais vistosos, sedutores e componham um certo estereótipo dominante do Brasil, podemos dizer que os humores do sertão são cada vez maiores, mais ricos e dominam a política, a economia. Talvez no Acre seja possível perceber também aqueles humores um pouco ásperos, orgulhosos do seu retraimento, corajosos e principalmente voltados para o desenvolvimento, num outro sentido, pelo que nos é dado ver, mas mesmo assim desenvolvimento. Todo o investimento em infra-estrutura, em educação, em bem estar (praças, museus, espaços para cultura, calçadas) estão fazendo de Rio Branco uma cidade preparada para vôos maiores (que na verdade já estão acontecendo). Todo o silencioso orgulho dos acreanos que se reflete na intenção de renovar a duração do vitorioso projeto político, econômico e cultural que estão prestes colocar o Acre compondo o centro do foco político a partir do próximo ano, são expressões de um sentido, ao mesmo tempo, novo e velho.
Escrito por Paulo Pinheiro da Silva às 21h48
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A falta de sentido
Por que falar? Não seria mais sensato calar? Muito já não foi dito? Mas se eu me calo, então, logo me vem uma verve incontrolável de opiniões, de possíveis textos, de inquietações e problemas prenhes de outros sentidos aos quais eu me rendo e diante dos quais não há escolha. Mas por que isso? De que necessidade surge o ato da escrita? Não pode ser da mesma forma para todos! Talvez uma gama de problemas imperiosos colocados a partir de um plano anterior à possibilidade de formulação de cuja necessidade não se pode fugir por muito tempo e que resiste, se transforma, mas não desaparece? Mas num mundo tão agressivo e infantilmente ávido por satisfação, não se pode mais colocar aquela necessidade senão como patologia, distúrbio, ou seja, como um desvio do caminho “natural” para a felicidade. Algumas vezes, as pessoas se acostumaram tanto a sonhar que não percebem que viver, realizar, praticar exige mais do que boas idéias. Noutras, a obrigação de fruir nos agencia impiedosamente, pois essa promessa que nos é feita de felicidade completa como um direito inalienável e como finalidade última da existência trabalha no sentido de estar ali atrás como uma exigência irrealizável que nunca é superada e que, mais ainda, nunca é abandonada. Mas por que compor, no final das contas? Por se ter algo a dizer? Mas o mundo hoje não é repleto de dizeres que têm a pretensão de esgotar todos os campos? O que pode você contra toda uma constelação de meios de comunicação que dizem e repetem tudo, de várias formas, em vários momentos com intuito de embrutecer e esgotar os últimos suspiros?
Mas agora não é a hora de perder as forças. Todo esse estado é apenas uma aparência, o estado de coisas só se mantém por essa aparência que seduz para a sua mentira até o ponto em que as pessoas desejam do fundo de suas almas serem mentiras semelhantes! A multiplicidade da nossa sociedade é apenas uma aparência, pois o que ocorre na verdade é a saturação de umas poucas idéias superficiais e primárias até a exaustão, até que tudo volte para a inércia que se considera segura para o “sistema”. Nunca houve uma normatização da ação pela não ação como acontece hoje: ninguém pode fazer uma diferença real, mas apenas comercial e financeira. Na verdade, nunca foi tão necessário dizer coisas, mas não da forma habitual, não para erigir como modelo estético, cognitivo ou moral. É necessário dizer coisas de forma inusitada, de forma enigmática, sobre coisas inabituais. Não sobre a verdade e a mentira das coisas, mas sim sobre um “outro” mundo (real) que existe no mundo (imaginário) que vivemos.
Toda a ansiedade, a inadequação, a insatisfação geradas para serem combustíveis desse homem novo, de sua impaciência em nunca se deter diante de nada e também de nunca se sentir satisfeito com nada, é o nosso maior veneno, pois é ela no final que nos faz perceber tudo nas últimas, que nos dá a sensação de que nada adianta, que nos convence de que estamos sempre atrasados, vencidos, de que nada vale a pena, ou seja, de que estamos, e não apenas nos sentimos, irremediavelmente alijados de tudo que confere sentido. Mas é justamente essa necessidade de sentido que a transforma em veneno a nossa experiência interior e exterior, pois quando a humanidade teve um sentido tão determinado quanto aquele que exigimos agora de nós mesmos? A televisão conseguiu sem nenhuma intenção disso aquilo que todos os confinamentos do mundo só conseguiram por um tempo e á custa de muita violência, ou seja, ela conseguiu deixar os corpos dóceis, passíveis de um amoldamento nunca antes pensado. Por isso aquela diversidade é antes uma tentativa de saturar e dar justamente a sensação de que todas as saídas estão ocupadas!
A filosofia pode sem dúvida ser um poderoso antídoto contra aquele estado de coisas. Não para todos com certeza, mas para aqueles a quem os barulhos e as multiplicidades observadas soam como propaganda de televisão. É, na sua exigência de demora, na sua forma de dar um sentido inusitado para termos habituais, na sua forma de dar todo o peso para frases repetidas todos os dias, que a filosofia mostra a sua força. Não se trata de verdades exclusivas, na maior parte do tempo, mas sim de entender o peso da verdade com a qual temos um contato habitual.
Mas nós reclamamos da falta de sentido da existência? Por trás de toda a multiplicidade de atos e vontades individuais não se esconde um todo caótico que nunca nos permitiria um fim. Não! O que nós vemos e percebemos de forma dolorosa é que não somos nós, na nossa subjetividade, que traçamos esse fim. Por mais que tenhamos a pretensão de agir de forma livre, temos sempre a impressão (infelizmente verdadeira) de que estamos num campo já determinável e determinado, mas que não tivemos opção de escolha. Mas o que isso mostra? Algo que talvez tenha existido sempre, mas que o nosso mundo moderno deixou a descoberto: a subjetividade não é fonte de novos sentidos, ou seja, se quisermos aprender novos sentidos devemos nos precaver das particularidades soltas que formam uma subjetividade e mergulhar no fundo indiviso, onde não existe subjetividade que não seja dissolvida, ou transpassar os velhos sentidos e percebê-los partidos e em pedaços. Ou seja, as questões fundamentais ou estão além da subjetividade, nas sobras de pedaços dispersos, com um sentido disperso, ou aquém, num todo dissolvido e pré-subjetivo.
Nunca a filosofia foi tão necessária para reflexão. Nunca o mundo foi jogado numa tão grande insciência ilustrada, ou seja, a aparência nunca foi tão cultuada e tão defendida por suas vítimas. Mas não há outra saída, apenas com mais circulação de informações será possível prever alguma forma de transvasamento desse estado de coisas para algo novo para o qual nós não teremos olhos, nem ouvidos e quem sabe nem compreensão, mas que as próximas gerações sentirão como a sua verdade.
O entreato de que nós sentimos o peso não poderá se prolongar para sempre. Toda a cultura material, espiritual, científica está, já a um bom tempo, num estado de dispersão em que vemos as suas partes separadas de um ou vários todos que lhe conferiam sentido de órgão, de função-meio para uma função-fim dada pelo todo. Agora, os todos se dispersaram, se quebraram e os seus pedaços flutuam num oceano indeterminado sem destino, sem função, mas já pressentindo os novos fins a que se destinarão em novos todos. Por isso aquela sensibilidade de fim, de dispersão e de falta de sentido a que a cultura européia (a arte em especial) está exposta desde o começo do século XX é a contrapartida de uma multiplicidade de fissuras profundas e crescentes nos velhos complexos de fins, meios, sentidos e significados da cultura européia. Talvez não nos caiba juntar os pedaços todos, mas não devemos ficar acanhados em apanhar pedaços velhos e lhes conferir sentidos novos...
Escrito por Paulo Pinheiro da Silva às 23h27
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A guerra e a cultura
A misantropia é uma característica muito freqüentemente atribuída aos estados filosóficos e seus portadores. Platão fala, no Teeteto, da solidão, da incompreensão e da desnaturalização do filosófico. Nietzsche se refere, nos seus últimos escritos, a uma explicação “meta física” para a sua solidão: ela seria o resultado de uma concentração tão grande de energia que seca tudo a sua volta, não permitindo a aproximação de ninguém e, principalmente, do amor. Rousseau, nos devaneios, encara com certa amargura a sua sina. Mas do que se está falando? O amor e o desprezo se fundem ao ponto de não se poder separar.
Mas é possível abandonar os homens por amor a eles, por temer não mais amá-los caso continue a conviver com eles. O fato de que “eles” trabalham febrilmente contra si mesmo, contra algo precioso em si que se quer destruir por vingança, como acontece, contra algo de que se tem necessidade de jogar fora, como dizem, os faz dolorosamente contraditórios e paradoxais. A um homem a quem incomoda a “desordem” aquele espetáculo de autodestruição é insuportável: o descuido com a própria formação, a malícia e o desrespeito em relação aos que sabem, a exaltação auto-complacente da nova religião grega, por exemplo, a incompreensão em relação a si e a sua volta são todas características de difícil digestão para um Heráclito. A auto-diminuição frente às divindades, a autocomplacência de se dar sempre razão, agridem pela inciência, pela mesquinhez, pois ele (o filósofo) sempre se sente um pouco irmão, um pouco responsável quando enrrubrece frente a uma mentira que visa uma vantagem indevida ou que visa apenas dar uma aparência mais valiosa (melhor ou em mais alto grau) e falsa de si, sem ter esse direito e, principalmente, sem demonstrar em suas ações a menor preocupação em adquirir esse “direito”.
Mas para que isso seja objeto de um sábio é necessário que o enfraquecimento do poder senhorial seja tão abismal que ele se coloque o problema de “se eu governasse” ou “nenhum governo de si e do estado nos garante um sentido prévio que nos dê certeza de para onde seguir”.
O filósofo nasce, portanto, dessa nova conjuntura, onde a profundidade de análise se volta para uma nova preocupação no conhecer e no comunicar. Vários aspectos que não eram objeto de investigação como os destinos da cidade estão, agora, muito mais próximos da preocupação geral, o cidadão, de uma forma ou de outra, tinha de participar, assentindo ou reprovando, de um convencimento episódico e humano e não mais divino e universal. O sábio, por outro lado e num momento anterior, interrogava as divindades, organizava o calendário e a vida de acordo com um universo divino expresso na matemática, na sua exatidão no calendário e na justiça no campo, mas ele se preocupava mais com a manutenção do arranjo das coisas através de oferendas. Estavam sempre a serviço de um semi-deus despótico que participava e protagonizava uma ordem que ele, o rei divino, compunha de forma inteiramente singular. O desaparecimento do rei divino faz surgir uma serie de objetos e, da mesma forma, uma nova forma de sábio. Ele agora fala nas cidades, às vezes como um quase-deus carregado por admiradores, às vezes como um rapsodo errante que blasfema contra os deuses e contra o homem. Mas o que ele diz? Não mais uma simples rememoração de eventos, míticos ou não, que fundam e dão sentido para aquela ordem de coisas no passado, mas uma explicação e, portanto, uma tentativa de conhecer e de intervir no curso da natureza e dos valores humanos.
Mas dito assim se tem a impressão de algo muito corriqueiro: interpretar, compreender, ensinar, explicar, todas, palavras que escutamos desde a infância. Mas esse olhar no fundo das coisas, enxergando coisas que não eram vistas por ninguém ou por quase ninguém, ameaçava colocar as coisas de pernas pro ar (como Anaxágoras, quando diz que o sol é uma pedra incandescente e não um deus, e é forçado a fugir de Atenas para não ser morto) e não tinha uma acolhida sempre unânime e respeitosa, nas cidades gregas.
Duas posições frente a esse estado de coisas aparecem: a ironia e a melancolia. A ironia unitária que se opunha aos deuses, aos maus costumes e a melancolia pluralista e dinâmica que se afasta e olha de longe e do alto. O ser de Parmênides tem um pouco do desprezo por um mundo que parecia ser apenas corrupção e baixeza e fornecia um antídoto para a agonia da corrupção de uma matéria . O afastamento de Heráclito, sua obscuridade, arrogância e desprezo são da mesma forma uma espécie de pessimismo frente àquele mundo da corrupção. Mas ambas procuram olhar além e abaixo das coisas numa extensão intelectual das coisas. Parente da crença, mas com um fim mais difuso, contraditório e dinâmico, esse além comporta e comportou muitos significados-coisa e hoje não se pode negar uma consciência muito maior dessa dimensão “psicológica”, “cognitiva”, “sintética” da existência.
O problema da representação e do caráter abstrato do mundo está materializado na televisão, nos recortes de jornal, na crescente necessidade de sempre saber como funciona qualquer coisa-linguagem com seus significados difusos, com a sua materialidade abstrata que permite muitos arranjos e aspectos na mesma coisa. Talvez a intuição original dos primeiros filósofos que não diferenciavam muito bem as coisas dos conceitos não fosse, no final das contas, um equivoco ingênuo de iniciantes, mas uma compreensão já suficientemente profunda para perceber (e se agoniar pela) a essência nada perene da matéria e da conformação de que depende o seu modo de vida, os seus valores. Heráclito diz que, pelas leis da sua cidade, se deve lutar com tanta decisão quanto pela muralha da mesma cidade: na cultura e não na guerra se travam as grandes batalhas. A palavra e o pensamento são armas que podem ser utilizados mesmo na misantropia, pois eles nunca são impunes e nunca são insignificantes.
Escrito por Paulo Pinheiro da Silva às 00h04
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Por que filosofia?
Existem questões que denotam uma grande incompreensão a respeito do objeto indagado. Quando perguntamos, por que filosofia, o que esperamos obter como resposta? A utilidade geral dessa disciplina na economia geral de uma época, povo, classe, disciplina? Então se pergunta pela utilidade da filosofia. Mas o que significa essa busca por um sentido prévio expresso na utilidade? Significa procurar uma definição geral e prévia para toda e qualquer expressão filosófica. Significa também nortear e dar um sentido único à função exercida pela filosofia. Mas, dessa forma, se domestica a filosofia e se retira dela a sua maior característica, ou seja, o seu caráter sintético. Toda a filosofia que queira exibir com vigor os seus “direitos senhoriais” como ex-mãe de todas as ciências, nunca se bastará com definições prévias que sirvam de leis anteriores, de princípios fundadores.
Se a filosofia tem ainda um sentido forte, ele só poderá se manter na medida em que ela continue a legislar desde o início sem nenhuma coação de disciplina, ou seja, apenas na medida em que ela seja legisladora desde o início. Uma filosofia, que seja digna desse nome, será sempre invenção de si mesma. Por isso não haverá nenhuma determinação prévia, nenhum sentido prévio, nenhuma irmandade com outros saberes de forma geral. Ela pode e terá afinidades com outras filosofias e ciências, mas não dentro do mesmo gênero, mas sim dentro de uma relação de consonância, dentro de uma relação de singularidades ente si.
É de causar risos a afirmação de que “não é mais possível filosofia”! Mas quando ela foi de fato possível? Ou o que significa dizer que ela é possível? O que é essa possibilidade referida à filosofia que é e sempre foi criadora de possibilidade e não dependente dela? Ela nasce de uma incompreensão, de uma série de impossibilidades, antes que de possíveis significados prévios. Quem concebe algo como possível, na verdade, já criou a coisa inteira através do seu aprisionamento numa malha de alternativas visíveis conceitualmente. A filosofia, ou melhor, cada filosofia cria o seu possível pela afirmação de que não se tinha ido, longe bastante, no campo das possibilidades, e, portanto, se coloca num campo (ou numa caverna, como diz Nietzsche) mais profundo, onde novas possibilidades se abrem. Para que haja filosofia é necessário, portanto, alguma temeridade, um pouco de cegueira sem a qual o filósofo nunca seria capaz de dizer o que disse, pois se ele pudesse prever as conseqüências...
Hoje a grande tarefa que se abre para o filósofo diz respeito à superação de velhas e inúteis dicotomias. Diversas contraposições como ideal e real, sensível e intelectual, temporal e atemporal, já se comportam como tentativas de ideologia e não de filosofia. Alguma coisa nós deveríamos poder tirar do fato de que o mundo hoje, mais do que em qualquer outra época, se apresenta como uma construção abstrata empreendida pelas forças de valoração das manifestações materiais de uma vontade geral que chamamos de mídia. Não se trata de idealizar, mas de perceber que entre o que chamamos de ideal, como um irrealizável de fato, e o que chamamos de real, como um vivido de direito, a divisão se esgarçou. A insatisfação abstrata e generalizada que temos com o real (insatisfação que era “privilégio” de poucos em época recente) nos mostra como já não o separamos de um irrealizável de fato e que exigimos dela para a nossa satisfação mais corriqueira algo que ela nunca poderá fornecer. A felicidade que hoje é quase um direito e um fim a que todos devem buscar não é algo que comporta elementos contraditórios entre si (como nos mostra Kant com muita propriedade na fundamentação)? Mas a nossa visão da realidade e a própria realidade, de forma quase inconsciente, ou seja, de forma que a ninguém é dado o direito de colocar isso em questão, não são sempre construídas á partir desse ideal? Poderíamos dizer, numa fala moralista, que teria como intenção reconstruir velhas demarcações, que “não conseguimos mais diferenciar o sonho da realidade!”. Mas isso é nostalgia, pois o que devemos notar é que o mundo é um sonho (nem sempre bom, é verdade), ou seja, que ele é construído no nosso olhar, ao mesmo tempo que constrói a nós e ao nosso olhar que fazem parte do mundo.
Da mesma forma, não faz mais sentido, frente a uma causalidade conceitual tão profícua, continuar separando dois planos: o sensível e o inteligível. Os conceitos não se situam num plano exterior, chamado de mundo das idéias ou mundo inteligível! Entre as coisas e os conceitos talvez exista uma diferença apenas de grau e tudo esteja num mesmo plano, ou seja, os conceitos são na verdade as próprias coisas (não a representação de coisas) em estado mais selvagem, com maiores possibilidades e estabelecendo relações de consonância e dissonância entre si. O que nós chamamos de matéria nada mais é do que a contração de um estado de coisas que está muito distendido nas idéias e conceitos. Mais ainda, tanto um quanto outro, são na verdade, grandes buracos para nossa compreensão. Poderia ser objetado que as coisas estão no tempo e os conceitos fora dele. Mas essa é apenas uma forma de colocar as coisas de acordo com uma escala de tempo: da mesma forma que rochas podem parecer fluídas dependendo da escala de tempo (geológica) que se adota. As idéias têm também um tempo e uma causalidade... As coisas têm também algo de incompleto e eminentemente selvagem no seu âmago... Talvez seja isso que Nietzsche queira dizer quando diz que se rasgou o véu entre a luz e as trevas... talvez.
Existe, ou antes insiste, como uma névoa, mas sem corporeidade, uma memória, como diria Bérgson, que na verdade se contrapõe com a matéria de forma diversa. Não se trata mais de conceber o “mundo inteligível” como uma imobilidade reguladora sempre acessível ao entendimento e passível de esquemas que norteiem o devir da sensibilidade. Não! É o próprio inteligível que comporta o grau mais elevado de mobilidade. As idéias, conceitos, sensações e sentimentos neles impregnados são mobilidade pura, dinamismo puro, mas um dinamismo difícil de apreender. Entre as coisas e as idéias, portanto, devemos conceber uma escala de gradações e não uma contraposição. As coisas seriam apenas as oportunidades para que as idéias se regrem...
Escrito por Paulo Pinheiro da Silva às 14h05
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A cegueira do filósofo
O filósofo freqüentemente se comporta na juventude como um cego. Ele não enxerga as marcações e limites do “firmamento”, ou seja, do conjunto de valores vistos e sabidos pela sua época. Para ele há uma extensão, um acréscimo de significação que ele pode ver tão bem e com tanta nitidez que ele acredita compartilhar com outras pessoas essa visão. Mas isso se deve ao fato de que as ações, opiniões, crenças e todo o arcabouço de pensamento das pessoas pareciam pressupor aquele acréscimo. Por isso, durante boa parte da sua vida, ele acredita estar na companhia de muitos, ele pensa ajuizar alicerçado num senso comum. Como se ele dissesse pra si e pra todos: todas as minhas conclusões foram tiradas na conversa com vocês, a partir das suas opiniões. Apesar de representar, na opinião geral, a ausência de bom senso e mesmo a loucura, ele ainda fala, como todo mundo, em loucura, em desvario, ou seja, ele não se vê como alguém que diz e pensa coisas extraordinárias!
Depois de uma série de experiências desagradáveis, em que fica evidente a invisibilidade do mundo em que ele vive ou acredita viver, um mundo que, a partir daí, ganha um status de apenas “quase”, ele percebe como o “seu mundo” se furta e se esconde do olhar de todos. Mas é justamente pelo fato de que a sua bússula lhe mandava trilhar determinado caminho e que esse caminho era visto como uma transgressão e, como se fossem daltônicas, as pessoas lhes diziam, “mas aí não há caminho possível!”, que ele se dá conta de que a sua bússula é só sua... Mas por que diziam aquelas coisas se não podiam ver o que eu vejo a partir delas, pensa o filósofo. Ou melhor, como dizer aquelas coisas impunimente? Surge então, aos seus olhos, o mundo em que realmente vive e sempre viveu. Um mundo em que a função da linguagem é a comunicação, mas a comunicação corriqueira, funcional, utilitária. As coisas mais extraordinárias que ele ouvia eram apenas imitações com intenção de causar alguma impressão, de alcançar alguma consideração e vantagem aos olhos de outros. A linguagem que lhe parecia a mais sedutora, na medida em que era portadora dos significados mais elevados e, portanto, profícuos, nada mais era do que mascaramento pelas palavras. Dessa forma, ele também as utilizou, as mascaras, sem saber e sem querer, aos olhos de todos...
O caráter aporético de um certo grupo de diálogos platônicos pode atestar esse fato. A negação devia levar as pessoas pelo caminho que, acreditava ele, levaria a uma outra ordem de valores, ou seja, não era necessário fazer todo o trajeto. Quando Sócrates e Teeteto discutem, no diálogo com o nome do último, o que é o conhecimento, existe a referida confiança. Não diz Sócrates que nenhuma das verdades expostas por ele é de sua lavra? Não há em todo o platonismo essa confiança de que o curso de uma investigação dialética precisa apenas de que se confie na possibilidade de separar a verdade da falsidade? Nos diálogos aporéticos a investigação se detém na separação e distinção clara de um caminho sem saída para o conhecimento, mas ela é fruto de uma confiança de que apenas esse afastamento já é suficiente para colocar na trilha correta. Em tudo isso, em especial nessa negatividade, há a confiança de que se pode enxergar com o intelecto aquela extensão e que, portanto, não há extensão e sim apenas uma continuidade. Talvez a fase propriamente idealista represente a tentativa de preencher aquele “trajeto natural”, uma vez que aquela constelação de coisas permanecia pouco ou nada visível.
Mas parece que essa cegueira a respeito de si e do seu entorno é um eloqüente sintoma de juventude. Em Kant, por exemplo, com sua linguagem cifrada, com suas exposições cerimoniosas, onde vários erros de interpretação já são previstos e mesmo incentivados, onde muitos conceitos permanecem “artificialmente”, onde o caráter sintético da sua filosofia, que precisa, então, de deduções para fundar a legitimidade do novo, já se vê o traquejo de um filósofo com experiência suficiente para querer ser antes mal entendido do que compreendido em profundidade.
O caminho do filósofo se apresenta assim como um “fundo se saco”, ou seja, como um trajeto que terá “em breve” de ser trilhado! Nietzsche, de outra forma, experimentou um pouco dos dois modos, pois acreditou na juventude que a cultura alemã ia, par e passo, com os seus anseios de juventude de renovação para uma cultura européia já cansada. Acreditou mesmo ter encontrado em Schopenhauer e em Wagner companheiros para os seus ideais. Acreditou que as obras desses monstros da cultura alemã significavam que essa cultura era portadora de algo novo e jovem, mas nisso havia entusiasmo juvenil... O sentido que ele antevia era um sentido difuso, mas inexorável, que precisava, foi e será muitas vezes inventado e reinventado e que só o seria pelo abandono das coisas mais essenciais da sua estrutura “antropológica” e subjetiva, ou seja, que dependia de uma síntese e não do desdobramento de um “em si” da cultura.
Aquela visão, por fim, nada mais era do que miragem, mas uma miragem verdadeira... que terá de vir e, portanto, que não pode ser vista ainda a não ser pelo olhar dedutivo de um filósofo que vê primeiro com o coração e depois com a mente um espaço de significação portador de outros sentidos, de outros valores que ainda não existem, mas que existirão.
Em toda essa descrição há muito de sedução para “heróis” temerários que não precisariam se arriscar tanto, uma vez que tinham tanto talento, mas que sempre farão e se arriscarão! Mas aviso: Demócrito morreu na miséria sem nenhuma consideração, enterrado pela benevolência de seus irmãos; Pitágoras e os pitagóricos foram literalmente cassados na rua; Zenão morreu sob tortura; Sócrates...
Escrito por Paulo Pinheiro da Silva às 16h34
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O que é o sucesso?
O que é ter sucesso? É ser considerado bem sucedido? É se considerar dessa forma? Ou seja, o sucesso depende da opinião dos outros e de si mesmo ou de ambos? Com grande freqüência, entretanto, ambas as formas de considerar se mostram equivocadas. O sucesso imediato frente à opinião pública tem por base o sucesso material, o prestígio, o poder demonstrado pela pessoa, sua obra e rede de relações em alcançar uma condição onde as pessoas gostariam de se encontrar. O sucesso geral exibe algo do caráter modelar que é esperado, pelo grande público, das posições que “devem” ser invejadas e, dessa forma, se relaciona mais com uma ilusão e sedução geral exercida na imaginação de uma maioria. Mas é possível que a própria pessoa, quando se considera com sucesso, possa se colocar de fora daquela situação geral? Ela é apenas, na maioria das vezes, apenas a encarnação individual daqueles anseios gerais.
Quando vemos diariamente veiculadas as condições degradantes e pouco sedutoras da docência de forma geral, deveríamos perguntar pelo motivo de tal desqualificação. Porque é a verdade, diriam vocês. Mas todas as profissões têm uma maioria de indivíduos que ganha mal e trabalha muito: quando se fala e veicula a profissão de médico, se enfatiza os que ganham bem; os publicitários, os jornalistas, os advogados e muitos outros têm uma situação parecida, mas, quando se evoca essas profissões, elas estão envoltas numa malha de sedução e não de detração. Existem muitos professores que ganham bem e essa é uma profissão que pode ter um retorno tão bom quanto qualquer outra, mas isso parece que não deve se tornar público...
Mas a filosofia nos ensina que não devemos nos deixar levar por aspectos psicológicos, ou seja, as considerações em relação aos sentimentos do ator, do espectador e de ambos não podem servir de parâmetro. As melhores e mais influentes coisas de uma época são geralmente aquelas que não exercem nenhum fascínio sobre o desejo dessa época. Aquilo que a própria época considera como melhor não é com certeza o aspecto pelo qual ela será lembrada. As maiores qualidades de um povo, época ou mesmo pessoa são invisíveis para elas mesmas. Mas o sucesso em alcançar algo dependerá sempre da percepção daqueles que a julgam como tal. Não há nenhum critério absoluto para o sucesso, mas cada época procura nas outras a encarnação daquilo que mais lhe falta. Por isso há sempre muito saudosismo atávico nas considerações sobre o passado, pois essa retomada tem mais a ver com um ideal que não se pode alcançar no momento, que não era ideal quando existia, mas que é resgatado como forma de atacar o presente. Dessa forma o passado é sempre mais moral, íntegro, belo e verás do que o presente, pois essa retomada diz respeito ao ataque em relação ao aqui e agora e não a uma consideração essencial.
Mas o passado é sempre feito no futuro. Ele é reconstruído através de uma idealização às avessas, onde procuramos, num tempo que não existe mais, os fatos que não podem acontecer no presente. Assim o paraíso é sempre perdido e o passado é sempre uma fantasia em relação a uma impotência do presente. As maiores idealizações se relacionam, então, mais com uma negação do presente do que com uma afirmação do passado.
A nossa necessidade de ideais se relaciona, em grande parte, com uma grande insatisfação em relação ao presente. Hoje as expectativas são infladas pela mídia a um ponto em que nada pode ser suficiente para satisfazer um desejo tão grande e contraditório. É comum ouvir dizer que nós hoje não temos ideais. Mas isso é verdadeiro? Ou o nosso mundo se tornou tão abstrato e onírico que nenhum passado, nenhum futuro, nada que não seja a realização imediata e sensual das necessidades criadas em nós pela nossa época, pode satisfazer? Mistura estranha e insistente! Quanto mais abstrata é a percepção que temos do mundo, mais sensual se torna essa abstração. Por isso o que nos seduz no passado é justamente aquilo não tinha prestígio ou valor para eles. Gostamos do sossego, da qualidade de vida, da sensualidade de boa consciência que atribuímos ao passado. Mas o passado, muito freqüentemente, operava uma inversão em relação ao que nós somos, ou seja, quanto mais concreta era a percepção do mundo mais abstrata ela se tornava. O prazer sensual é, portanto, a contrapartida de uma época em que nada mais parece convencer a não ser os dados mais sensoriais, da mesma forma que, Deus seria o ideal de uma época tão concreta e objetiva que apenas a superação supramundana dessas condições podia seduzir.
Por tudo isso, costumamos erigir como modelar apenas o que era considerado sem nenhuma possibilidade de sedução. Toda a sensualidade que estava confinada nos estratos mais baixos da escala de valores de outra época é o que mais nos seduz, da mesma forma, que os valores que eles idealizavam se encontram na nossa escala mais baixa. Mas quem tem olhos para isso?
Parece que a filosofia muita vezes exerceu exatamente essa função atemporal que não era visível para sua época. Ela foi buscar na superação dos valores de sua época o seu melhor e mais insistente “foco de visão”. Por isso é freqüente a referência ao fato de que um filósofo precisa de muito tempo para atingir a compreensão generalizada daquilo que ele considerava como a sua verdade mais essencial. Visto dessa forma, todo o sucesso é apenas a falsificação de uma grandeza e a verdadeira grandeza se parece mais com um fracasso. Por isso a filosofia, nas suas mais altas expressões, é na verdade o trajeto que vai na contramão dos valores da sua época e faz da negação desses valores e de si mesma o seu ideal. Na verdade, não existe risco maior do que esse “ir no sentido contrário”, pois assim o abismo se coloca como a meta e a metodologia para esse fim como temeridade. Mas para a sua época tanto a meta como a metodologia parecem como ausência, caos ou mesmo um nada almejado patologicamente. Por isso a filosofia só tem chance de não ser essa auto-destruição quando ela irrompe já na velhice, quando já se aprendeu toda a estratégia do disfarce.
Escrito por Paulo Pinheiro da Silva às 15h37
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Fraquesa e opacidade da lei
O inesperado, o repentino, o inusitado, o aparentemente caótico são manifestações de que se valem as forças ligadas à potência do fraco. Mesmo que sejam apenas fruto de uma opacidade, elas são empregadas como atalho, como vantagem pelas classes submetidas que sabem da sua distância em relação ao simples caos. A dissimulação, o improviso, um aparente desleixo, uma aparente fraqueza, são formas de potencializar o efeito de uma força em condições de inferioridade que precisa garantir o mínimo de reação, que precisa ter certeza de contar com o elemento surpresa, pois não pode empreender um ataque frontal, nem pode compartilhar da mesma concepção tradicional de ataque e defesa. Todas as sociedades aristocráticas sempre nutriram profundo desprezo por essa potência, mas isso se deve mais ao fato de que elas muitas vezes foram batidas sem saber o que estava acontecendo: da superioridade (de estratégia, de poder de fogo, de posição), que deveria ser premiada com a vitória, vinha, como que “por acaso”, a derrota. Elas achavam que era injusta essa derrota, tendo em vista a sua superioridade. Como dissemos, a potência da fraqueza é própria das classes populares, de todas as épocas e lugares, que precisam inverter condições desfavoráveis com intransparência de força, de posição ou de intenção.
Mas o nosso caso é particular, pois a nossa metrópole, referência de grandeza, tinha incorporado nas suas estratégias e modus operandi toda essa potência. Dessa forma, o principal era controlar, pelo lado dos súditos e colonizados, o acesso à informação que poderia ser combustível para revoltas cuja repressão poderia representar esforço demais. Já pelo lado dos concorrentes, as potências européias, assumia uma posição de dissimulação, de ocultamento de potencialidades. Mesmo o desenvolvimento era freqüentemente retardado, para não chamar a atenção de adversários cobiçosos pela riqueza e por qualquer indício de enriquecimento que pudesse ser saqueado.
O ar de desleixo que as coisas no Brasil exibem tem muito dessa estratégia da dissimulação: não deixar que pareça interessante aos olhos dos outros as coisas daqui. Na incerteza da superioridade de força militar, o melhor era dar a impressão de uma ausência de vigor econômico, de beleza artificial. As classes da base da pirâmide tinham também a sua estratégia de ocultamento. Primeiro de tudo era esconder os sentimentos e as verdadeiras intenções, fazendo da ação uma encenação. Depois aprender a se dar um ar de saber menos do que na verdade se sabe. Mas essas estratégias, como aquela da metrópole, entraram no inconsciente, tingindo as nossas formas de pensar, resolver e agir.
A primeira conseqüência diz respeito a um medo de mudança. O desenvolvimento humano, material, espiritual ou cultural era encarado como algo com que se deve ter muito cuidado, pois “ninguém pode prever como as coisas se rearranjarão frente às mudanças”. O poder nas mãos da metrópole parecia depender de uma certa imobilidade econômica e principalmente humana. A referida permissividade cultural que vigorava na colônia parecia entrar nessa estratégia, ou seja, a permissão e incentivo para que cada grupo, separado por região e origem na África ou por posto e função no Brasil, pudesse ter a sua própria irmandade, com suas datas de festas, com seus santos e principalmente com seus próprios ritos, era sem dúvida uma forma de manter as classes dominadas longe de idéias e concepções que poderiam trazer desassossego para a relação senhor-escravo.
Mas a principal característica tem relação direta com a burla da lei em todos os seus sentidos. Desde o quebra-galho frente a um tributo, até o auxílio indevido do poder público, passando pelo descentramento frente aos costumes religiosos, estéticos ou culturais são todas estratégias da fraqueza. O Brasil surgiu e prosperou ao largo das “leis” escritas ou pensadas, conscientes ou inconscientes. Foi sempre desrespeitando as formas como as coisas “devem ser feitas” que nós adquirimos as nossas mais características formas de agir. Na Revolução acreana, as forças de Plácito de Castro eram muito mal armadas, enquanto as tropas bolivianas tinha uma formação militar tradicional. Não era possível ganhar a guerra com um enfrentamento tradicional de infantaria, mas a tropa brasileira encarnou a mais alta manifestação nacional: contornou as leis e hábitos tradicionais no que respeita à guerra e se utilizou de táticas de guerrilha onde a força se transforma em morosidade e a fraqueza se fortalece pelo seu caráter inesperado. Na luta com os holandeses em Pernambuco, a tropa não rendia muito bem quando manejada como uma tropa européia, mas era imbatível em mobilidade, em recuos e ataques repentinos, ou seja, nas estratégias de improviso. O nosso futebol tem na sua forma a essência desse estado de coisas. O drible é um ato subversivo, pois procura surpreender, enganar e contornar uma impossibilidade física. Por isso existe no Brasil o preconceito de que a força atrapalha a mobilidade e, portanto, a preferência por jogadores pequenos e habilidosos.
Mas a maior e mais maléfica conseqüência diz respeito a uma silenciosa confiança (que muitas vezes nos atrapalha) de que é sempre possível transformar o menos em mais. Essa confiança implica uma noção de tempo e de acontecimento completamente heterogêneo e nada linear. Todo o desleixo tem uma ordem não linear, todo improviso visa uma opacidade da lei e, portanto, um andamento que não se pode equacionar. A tortuosidade das esquinas e ruas de São Paulo ou do Rio de Janeiro estão refletidas na nossa alma que hesita frente ao “caminho certo”, que se esconde em imprevistas esperas, em descansos prolongados para agir em desacordo com qualquer lei...do bom senso.
Escrito por Paulo Pinheiro da Silva às 16h18
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Foucault e o Brasil
Para Foucault, a mesma estrutura disciplinar, a mesma intenção ortopédica de passividade e docilidade do corpo podem ser encontrados na escola, no hospital, na prisão. Mas esse estado de coisas dependeu de uma mudança de fundo: de uma estrutura de poder alicerçada no corpo do rei, no antigo regime, para uma situação, que chega até os dias de hoje, em que é o corpo da sociedade que é objeto de uma pressão estética, cultural, moral, sexual que visa disciplinar o corpo e a alma. De um momento em que o sujeito era tema de um discurso universal, chegamos, após o abandono do homem enquanto tal, ao ponto em que aparecem as ciências do homem. É nas configurações de poder com suas intenções normativas que surge a necessidade do conhecimento “a priori” das determinações de origem, anatomia, humor, disposição, hábitos que pré-determinam a ação (moralmente aceitável ou não) dos agentes. Essa nova forma centrada no corpo da sociedade, Foucault localiza nascendo no começo do século XIX, seguida de outras preocupações com a saúde pública, com procedimentos policiais, com o papel desempenhado pelas concepções médico-anatômicas à respeito do crime, da imoralidade, nos julgamento e processos de exclusão, etc...
Em todas aquelas manifestações que perduraram de forma generalizada até a década de sessenta e sobreviveram isoladamente até hoje, pode-se notar uma preocupação de inscrever no corpo dos condenados, dos soldados, dos pacientes a docilidade que o estado e as forças que vivem em volta ou paralelamente ao estado esperam dos indivíduos. Para tanto, foi necessário se cercar de uma gama de saberes que davam um caráter ortopédico às intenções de educação, de recuperação da saúde, no hospital, ou de busca da liberdade, na prisão. Quando o Brasil surge como nação independente de fato, ou seja, depois da abolição e da proclamação da república, essa história vivia o seu auge. Mas aqui o fundo de intenções é de outra ordem.
Ao invés de criar grandes espaços para o confinamento, a disciplina e os efeitos ortopédicos que ora eram produzidos, em primeira instância, nas escolas, ora eram repetidos na prisão e no hospital para os corpos que não se mostravam suficientemente dóceis para se moldar, aqui no Brasil, uma outra ordem se instaura desde a origem da colonização. A natureza e a carência desempenham papel de importância conceitual sem paralelos. Existe um duplo discurso sobre a natureza: ela é enaltecida quando se trata de idealizá-la e construir símbolos da pátria; dela é apropriada a mais valia dos corpos e coisas, mas, simultaneamente, ela é desprezada e encarada como empecilho para o sentido “civilizatório”. Por outro lado, a falta, a ausência e todas as estratégias que se articulam na potência do fraco foram objeto de uma “ciência” que visava transformar o menos em mais, ou seja, que visava reverter o que se poderia considerar uma desvantagem por ausência, numa vantagem pelo inesperado.
Por traz da exaltação da natureza existe uma intenção diferenciadora. Por um lado, reforçam-se os laços com uma ancestralidade idealizada, mas, por outro, se cria uma série de punições silenciosas que se embasam justamente na contrapartida daquela “exaltação da natureza”, no desprezo por tudo que diga respeito a ela. Não se trata de criar grandes sistemas de confinamento, mas sim de criar as condições para que as diferenças de educação sirvam de justificativa para negar educação: quanto mais o estereótipo da educação, da cultura, do equipamento cultural que pretende aumentar o prestígio dos seus detentores, é ausente de camadas inteiras da população, mais se justifica a diminuição dos investimentos.
No momento em que a escola foi estendida para a maioria da população, características da rua foram trazidas para dentro da escola. A rua é, como se sabe, das populações menos favorecidas e todo o estado de coisas que ela reflete diz respeito à essa exclusão, por uma lado, e a à criação de valores diversos por outro. A escola, a partir desse momento, passou a exibir características que eram próprias dos lugares negativos cuja invisibilidade vem do fato de que “ali nada há para compreender” a não ser a incompreensibilidade própria do caos. A degradação gradual dos espaços destinados a escolas, a corrosão do prestígio dos professores públicos, a estrutura que se cria para sanar esse estado de coisas que se aproxima cada vez mais de cadeias, são todos fatores daquela visão, ou seja, não há retorno em investir “nessa gente”. A escola está, portanto, alinhada com o terreiro entre a casa grande e a senzala, com o terreno baldio, com a determinação da exclusão, com a preservação e exclusão de uma maioria sedenta por perspectivas, mas que já desaprendeu a encontrá-las na escola. A escola, a prisão, o hospital, aqui no Brasil, se alinham certamente, mas não por sua linha disciplinar, mas sim pelo seu aparente desleixo. Claro que vários imperativos cuidam para que as coisas sejam assim e que, portanto, não se trata de algum desleixo a não ser na aparência, pois é uma estrutura muito bem pensada para produzir os efeitos que já são produzidos, ou seja, não existe acaso, mas uma estratégia que se utiliza da potência da fraqueza.
É um estado reproduzido de várias formas e com vários disfarces, mas com uma intenção clara: não deixar que o estudo se torne de alguma forma interessante. A tentativa de dar condições às escolas e aos espaços de cultura é indício de que uma nova direção pode estar surgindo. Por esse motivo acredito que seja do interesse público que o atual projeto seja prorrogado. Não porque tudo esteja uma maravilha, mas porque a direção é essa: investimento em cultura, educação, arte, esporte, etc...
Escrito por Paulo Pinheiro da Silva às 13h54
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A diferença é...
Existe para Gilles Deleuze uma diferença fundamental entre os problemas e as questões, por um lado, e as disputas e “lutas sangrentas”. Não que as últimas não possam ser traduzidas em termos de problemas e de questões, mas desta feita se mascararia um abismo que aquela distinção procurava salientar. Duas concepções de obra, de finalidade de uma obra filosófica, de linguagem, de ser... Numa linha salientada por Nietzsche, uma filosofia dever ser iconoclasta por natureza, ou seja, na sua malha de intenções se divisa muito claramente um efeito de crueldade que se espera da sua construção teórica: a sua leitura e mesmo a sua difusão equívoca terão certamente conseqüência fatal, teoricamente fatal. Os que vêem apenas problemas, “que devemos nos esforçar por resolver conjuntamente”, são aqueles que tentam de alguma forma federalizar a disputa, salientar a sua conversão recíproca e assim encontrar os pontos de apoio para uma solução de consenso.
Leibniz tinha planos de procurar o grande Kan (que governava a China) e provar que não havia diferença de fundo entre o budismo e o cristianismo. Mas ele já vinha numa linha de pensamento que fazia sempre a conversão antes da agregação, da absorção e da funcionalização da cultura alheia em relação à verdade....de deus. Benjamin, no seu “Drama borroco alemão”, mostra como a cultura pagã (greco-romana) foi em grande parte recodificada pela igreja. Sócrates era considerado um santo antes de cristo. A resignação para com a condenação e com a execução da pena o aproximavam de cristo.
Em relação às esferas do conhecimento se passou algo de parecido. Um princípio devia centralizar os usos e as materializações das idéias. O bem deve ser verdadeiro e belo. A verdade e o belo tinham uma relação dedutiva com o bem. É verdadeira uma boa ação e o mal deve ser entendido como a impotência intelectual, como a ausência de discernimento: todo erro é necessariamente mal. O belo, dessa forma, não podia sair daquele(s) campo(s), da verdade e do bem, e era, ora considerado como apreensível pela simetria e harmonia do objeto, ora como a mais alta moralidade que expressa a justeza e a beleza (quase um pleonasmo) da grande obra do divino artífice através do fazer artístico.
A perfeição na arte tinha um papel emprestado pela perfeição moral. Na estética era uma forma obscura que devia ser apreensível através da coisa tida como bela. Da mesma forma que a capacidade de apreendê-la faz da perfeição um parâmetro para a apreciação da arte, ela determina algo na forma, na disposição e na composição do objeto artístico. Na moral, por outro lado, a perfeição tinha de comportar elementos empíricos para a sua completa determinação, pois como poderia ser considerada bela e verdadeira uma ação que não promovesse, nem permitisse a preservação da espécie, do povo, da cultura, etc... Ela tinha de ser concebida ou por modelos ou por métodos de alcançar essa conformação modelar.
De posse de uma reformulação na concepção tradicional de finalidade que era calcada numa analogia com a fabricação artificial, Kant pode afastar a perfeição tanto da arte quanto da moral. Tanto o exemplo é equívoco e simplesmente reprodutor de uma gama de valores antigos e, portanto, inadequado e vazio para os fins da moral, quanto, o modelo de obra de arte deixa escapar o essencial que é uma certa regra (subjetivamente objetiva) produzida no livre jogo, ou seja, sem que o espaço e o tempo tenham qualquer interferência e sem que os conceitos e idéias determinem ou subsumam o gosto ou a obra em seu escopo genérico.
A última formulação do imperativo categórico, agir em relação a si e a todo outro como fim em sim mesmo e nunca como meio, ilustra bem a ruptura. O princípio da moralidade deve provir de uma formulação racional elementar e categórica em que uma instância subjetiva e racional, singular e universal deve ser origem e destino do ordenamento moral. Mas esse fim em si não pode deixar de destruir outras concepções de finalidade, de moralidade e de ordenamento moral. Nem o bem se alinha com a verdade, na medida em que a correta execução de uma ação não pode bastar para determinar a sua valoração moral, nem qualquer fim concêntrico a um fim maior como o da cultura cristã (nesse sentido que Kant diz que mesmo a verdade do evangelho deve ser avaliada pelo imperativo categórico), ou o da evolução das luzes e da ciência podem resistir. As concepções de universalidade (lei universal) e regularidade (como lei da natureza) que estavam expressas nas outras duas formulações do imperativo moral devem ser pensadas de acordo com a última. Nos deveres imperfeitos isso fica mais evidente, pois ali não é possível reduzir os seus deveres em deveres para todos, sem faltar com esse mesmo dever.
O resultado, equívoco ou não, é que se multiplicam os fins e mesmo as sua cristalizações de fins comuns. Na cultura, na política, na moral e talvez principalmente no conhecimento, a difusão de fins é uma realidade. Mas a preocupação não deve ser na federalização, mas sim na singularização das manifestações. Não mais como me assemelhar, mas como me tornar diverso, único, sem equivalência. Deleuze considera que a partir do sujeito nenhum problema real pode ser colocado, pois ou nos localizamos na dissolução do subjetivo no pré-subjetivo ou nos localizamos numa conformação não individual das diferenças. Quais os seus possíveis fins? A detração, a calúnia, a vaidade de uma posição injustamente conseguida? Então para você essas palavras soaram como “obscuridades”? Tanto melhor....”para nós dois” que não falamos a mesma língua, que não somos de modo algum irmãos!
Escrito por Paulo Pinheiro da Silva às 14h11
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O orgulho metafísico e o Brasil
Ainda hoje não nos livramos, nós estudantes de filosofia, da inveja que nos causa a ingênua defesa da verdade atemporal que se fazia antes de Kant! Era tão mais fácil, apreensível e comunicável o orgulho daquelas verdades saídas literalmente do nada, era mais cômodo erigirmos as nossas verdades de nossas escrivaninhas sem conhecer o mundo, sem pressupor nenhum “outro”, fazendo da “nossa imagem” (espero que não seja preciso explicar as aspas) um modelo para todas as épocas e todos os povos, protegendo a imagem que temos da “verdade”, do “bem” e do “belo” de toda a corrupção do tempo e de toda a variação no espaço, na medida em que as inscrevíamos numa instância metafísica (seja o mundo inteligível, seja o intelecto divino), nos valendo apenas e tão somente daquela escada de cordas, daquele instrumento poderoso e invejado que se chama lógica.
Não é de admirar que ainda tentemos começar ingenuamente de uma análise simplesmente formal como se, dessa forma, fosse possível se livrar da empiria, do desvio subjetivo. Mas, falando francamente, é ainda possível (supondo que realmente tenha sido possível e que não tenha sido apenas uma vã pretensão) partir ingenuamente de problemas “essenciais”, fornecidos pela lógica? Em outras palavras, é possível acreditar que da “forma” sempre se constituirá uma “matéria”? E que a filosofia trata de “todos os lugares” e por isso não deve se preocupar “com lugar nenhum”? Não seria auto-depreciativo e anti-producente invejarmos a matemática e acreditarmos ainda, depois de todos os séculos XIX e XX, que tudo que nos cerca é acidental e sem importância? Ou não seria essa a ilusão inconsciente que se deveria inferir da despreocupação com o que nos cerca, do desprezo em relação ao lugar em que os textos são lidos, desprezo expresso no silencioso orgulho dos “universais”? Mas crer em tal estado de coisas não seria já um juízo em relação à filosofia que adquire uma cor sem pátria, que se detém diante de problemas artificiais que não “devem” levar à sério o tempo e o lugar? A universalidade vista por esses orgulhosos leitores nada mais é do que uma forma de poder se sentir, de boa consciência, não pertencendo...
Mas de onde vem essa necessidade de não pertencimento? Primeiro, de uma experiência comum e corriqueira cuja necessidade de desqualificação era resultado de um projeto colonial: a coroa portuguesa foi sempre muito ciosa da sua tarefa de submeter e colocar ao seu dispor todas as energias das populações e terras de sua majestade e, para tanto, evitava a circulação das idéias “libertárias e revolucionárias” como autonomia, liberdade, mas, por outro lado, sempre permitiu que circulassem as idéias que fossem inúteis e inaplicáveis no Brasil, pois, dessa forma, ficaria evidente o caráter incompleto, atrasado e defeituoso das coisas, no Brasil.
Apenas coisas e idéias inúteis devem aportar no Brasil! O sentimento de não se levar à sério, de se irritar com o fato de que as “nossas” idéias mais queridas não servem para nada no Brasil, de que somos apenas uma imitação de um modelo e, portanto, nada que se possa e se “deva” levar à sério é sem dúvida um sentimento que impregna, para o melhor e o pior, para o bem e o mal, muitas manifestações da cultura brasileira.
Noel com a sua irônica interpretação tímida e a frase “o Brasil vai ter valor” ou ainda com o seu elogio invertido em que o Brasil é visto como um violão “que toca em falsete e só não têm braço, fundo e cavalete”, Gilberto freire que deixa de fora e desqualifica tudo que não seja branco e senhor ou negro e escravo e, por esse motivo, considera as condições históricas do mestiço no Brasil como não-condições que, pela carência a que foi submetido, não poderiam produzir uma raça e apenas uma sub-raça e com isso valorizou a afro-descendência, mas desvalorizou o Brasil mestiço e indeterminado são todas expressões desse sentimento antigo e recorrente a todas as nações, povos e mentes colonizados: os “dominados” devem querer ser o que os “dominadores” são e, ainda mais, nunca conseguir sê-lo de fato.
Não seria mais filosófico perguntar pela origem e justificativa desse “ponto de vista” e assim fazê-lo “desaparecer”. Como, “desaparecer?” Perguntam vocês horrorizados. “Essas idéias trouxeram o progresso e elevação que nos permitirão e permitiram atingir a autonomia, portanto, esse desaparecer é retrógrado e perigoso...”. Mas por que? É apenas a má interpretação que pretendemos que desapareça, não a ciência que nasceu na Europa, nem o estudo da ciência e muito menos a educação. Apenas se deve notar que essa indeterminação só é devida a uma carência de um ponto de vista mais adequado.
Escrito por Paulo Pinheiro da Silva às 23h50
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Multiplicidade e dissolução
Por que samba? O sujeito naquilo que nos interessa transita entre a multiplicidade dispersa de caracteres autônomos num mesmo “sujeito” e a dissolução desse sujeito numa indeterminação pré-subjetiva. A criação é ao mesmo tempo uma eterna repetição inconsciente do diverso, do diferencial e a profunda e inesgotável exploração de uma consciência sem fundo, sem fronteiras.
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O samba, os sambistas e a sua história se prestam tão pouco a uma definição única, a uma gênese única a uma forma única que por vezes nos perguntávamos se era ainda possível chamar tudo isso de um todo catalogável sob aquela rubrica: samba
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A heterogeneidade dos elementos crescendo cada vez mais, na medida em que nos aproximamos do objeto, faz com que tenhamos de pensar a repetição de alguma outra maneira. Claro, um todo se faz quando pensamos o samba, os sambistas, as músicas, mas não um todo homogêneo. Cada interpretação com a sua nuance, cada comunidade com a sua contribuição, cada ocasião com as suas infinitas formas de diferenciação. Da mesma forma, cada novo compositor do samba carioca uma história, uma seqüência de temas, um acento melódico, uma forma única de falar das mesmas coisas. Mas nessa multiplicidade de individualidades dispersas, pode-se ver da mesma forma uma certa repetição: não a repetição do mesmo, do que se presta apenas a uma reprodução mecânica, mas da repetição do que é singular. Por isso não pretendemos nem um conceito de samba ou sambista...
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Imóvel e dinâmico. Não uma coisa depois da outra ou em cada local e ocasião coisas separadas: imobilidade e dinamismo. Ambas as coisa ao mesmo tempo. Imóvel e nunca idêntico.
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José Ramos Tinhorão, na sua pequena história das festas no Brasil colonial, nos faz uma descrição da festa que foi a chegada de Cabral com a primeira missa, que não deixas de lembrar o carnaval carioca. Ele nos leva a pensar se não seria uma grande violência teórica considerar toda a história com a simples repetição dos mesmos elementos.
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Talvez essa confiança seja tão grande que aquilo que menos se busca é a expressão dessa repetição. O que se busca é então a singularidade, a adição de elementos diferenciais no ritmo, no tema, na tessitura da instrumentação, no tratamento dos temas, etc..
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O samba carioca nasce de uma confluência de ritmos, danças, pessoas, grupos que aconteceu no Brasil logo após a abolição. Ele é na verdade um panteão de povos, crenças, divertimentos.
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Para cada um que olha ele é algo diverso, para cada um que executa uma experiência única. Mesmo o significado do vocábulo é polissêmico: umbigada, prece, dança, canto, festa, termo geral para uma série de manifestações.
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Na mitologia de sua primeira gravação a marca de uma característica tanto da verias manifestações populares quanto da cena musical do segundo império: o desafio. Disputou-se, estrofe a estrofe, a sua autoria; Houve várias versões em que os contendores insinuavam, provocavam, insultavam, mudando e preservando a estrutura original como um tema que permitia a inclusão de várias camadas de duplos sentidos.
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Há uma música da velha guarda da mangueira que diz: quando xangô trinar o apito/ pega firme no apito/ que o samba vai começar... Xangô era o mestre da bateria e cabrito era o animal que emprestava a pele e o nome para o surdo. Mas é impossível de deixar de notar que um significado se forma nas entrelinhas, como uma espécie de sentido oculto. Samba pode ser lido como prece, cabrito é um animal de sacrifício e xangô é uma entidade e, portanto, daquele duplo sentido em que as coisas são nomeadas apenas pelos seus apelidos, surge uma expressão religiosa diversa: o ensaio como uma manifestação religiosa. Entusiasmo não significa literalmente ter deus dentro de si (in teo)?
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Filosofia se aprende com os clássicos. Mas depois desse treinamento do olhar não é mais necessário se limitar à história da filosofia, nem aos textos filosóficos... O mundo passa a ser um grande texto cuja sintaxe não se pode nunca axiomatizar totalmente, mas apenas localmente de forma incompleta. Num ataque à hipertrofia da consciência como causa da filosofia, dizemos que a inconsciência tem também o seu lugar!
Escrito por Paulo Pinheiro da Silva às 15h33
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Educação e relativismo
Para os estudantes de filosofia, há dois problemas frente aos quais apenas os diletantes permanecem indiferentes: o relativismo da verdade e a conseqüência desse relativismo para o desenvolvimento pessoal. Por ter sido caudatária de uma visão etnocêntrica de cultura, a filosofia, primeiro na idade média com uma filosofia que não podia deixar de rebater uma imagem moralizante na natureza, em especial na natureza humana, depois com a filosofia moderna que buscou um alicerce no sujeito e sub-repticiamente numa imagem correta de cultura, moralidade e estética, quase se esqueceu da enorme diversidade de correntes que fazia da filosofia grega uma diversidade muito maior do que os nossos estudiosos poderiam sonhar. Mas hoje vivemos uma época em que vai longe o tempo em que nossos avós ainda esfregavam os olhos frente a essa “morte de Deus”. O fim da segunda guerra mudou irreversivelmente esse quadro: a última peça do edifício metafísico, que teimava em não cair, é afastado e todos se envergonham de um dia ter sonhado também com ele.
Com que novos problemas a filosofia deve se deparar? Não existe um único modelo, mas então passam a ser vergonhosos o ensino e o aprendizado, uma vez que nenhum conteúdo é mais necessário? Mas para os povos que não tinham ainda conseguido alfabetizar de fato (para a real utilização da língua) a maior parte da sua população, a festa parecia ter acabado antes da sua entrada. Claro as idéias são perigosas! Mas essa não é uma história alemã que para nós não passa de história e não lembrança? Talvez exista uma instância atávica como causa do holocausto e que deva ser sufocada e, portanto, mesmo que discutível, é compreensível, lá, o medo das idéias. Tendo essa história em mente, alguns consideraram mais prudente a não inclusão do ensino de filosofia no segundo grau, em especial da filosofia alemã. Da mesma forma, esse medo é o motivo pelo qual alguns defendem a “humildade” e a “caça” de toda a diferenciação e vontade de ser diverso, apartado, pois, dizem eles, “essa vontade de ser mais foi uma das causas”. Tudo isso é muito discutível, ou seja, nenhum povo europeu sozinho pode ser dito culpado, nem nenhuma cultura causa única. Mas o que nos parece curioso é que esse discurso se preste aqui a uma apropriação conservadora.
Um país com uma auto-estima muitas vezes baixa no que diz respeito às letras e à produção teórica não tem a menor necessidade dessa dúvida a mais. As idéias são perigosas? Então, se nega educação? Então, a filosofia vira moral? Então a inteligência se torna uma pecha? E não é isso o que se tem feito? Há dois anos numa reunião de capacitação de professores em São Paulo, um palestrante disse a uma platéia de professores de ensino médio que, caso algum aluno demonstrasse inclinação para a leitura muito freqüente de livros clássicos de literatura ou filosofia, esse aluno deveria ser considerado um problema. Como, ler é crime e perigoso mesmo para a própria pessoa? Da mesma forma, toda reunião era iniciada com a frase “eu não quero ensinar ninguém a dar aulas”. Claro, respeitar as diversidades, a individualidade do professor...que devia dar sessenta aulas por semana e ainda avaliar, planejar e pensar cada aluno... Mas o curioso é que aqueles que criavam essas diretrizes tinham os seus filhos em escolas onde não havia nenhuma dúvida quanto ao valor da cultura, de um plano de aula, de um modelo flexível de aula. Para quem conhece a estrutura de ensino público do estado de são Paulo, os últimos acontecimento são apenas uma tímida algazarra perto do que pode ser toda uma geração alijada das condições mínimas de desenvolvimento.
Claro que, depois de alguns anos nessas escolas de mentira, o resultado deve estar bem a contento para alguns: uma “animalização” que ajuda a dar força ao discurso silencioso que diz “eles não gostam de estudar” e ainda “não se deve gastar mais dinheiro com a educação”. Às vezes em que se tenta dar uma educação de qualidade com prédios descentes (como os que nós temos aqui com auditórios e escolas bem cuidadas) e com professores bem pagos uma parcela diz “é desperdício de dinheiro” ou ainda “é falta de responsabilidade fiscal”. Toda vez que se pretende dar ou tentar dar condições iguais, na forma de uma educação de mais qualidade, os representantes nos meios e comunicação daquela parcela dirá que é “farra com dinheiro público” e tentará detratar essa força política como “a pior coisa que já aconteceu” ou “devemos cuidar para que essa raça nunca mais chegue ao poder”. Mas é com segundas intenções que devemos lê-los, no caso de devermos lê-los.
O centro da educação é o professor e o aluno. Mas um prédio bem cuidado, um auditório, instalações dignas são instrumentos imprescindíveis para que essa relação se dê. Para um professor que tenha tido contato com o ensino médio público de São Paulo e se depare com a estrutura mais bem conservada, daqui do Acre, não poderá nutrir dúvidas quanto ao fato de que existem forças conservadoras que se utilizam do relativismo de forma muito maliciosa. Não é possível para esse professor não concordar com a firmação de que aquele descaso é fruto não de alguma impossibilidade material ou orçamentária, mas da falta de vontade política e da intenção deliberada de negar acesso e oportunidades para a maioria da população daquele estado. O pior é que esse referido estado funciona como modelo para muitos estados: se São Paulo não faz.... Quem pode negar que aqui tem sido diferente e que houve muitos avanços?
Escrito por Paulo Pinheiro da Silva às 13h08
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Adorno estava errado
Alguns dizem com muita propriedade que toda a filosofia é apenas comentário de Platão. O fato, contudo, é que Platão coloca na boca de Sócrates várias reflexões de que não podemos avaliar a paternidade. Uma em especial é propícia para a abordagem do nosso problema: a relação entre prazer e sofrimento. No Fédon, Sócrates diz que existe algo de eminentemente paradoxal no prazer, pois ele tem sempre de estar atado de forma secreta e incompreensível ao seu oposto, ou seja, à dor. Ele, Sócrates, depois de ficar por muito tempo com as pernas acorrentadas (esperando sua execução), sente um prazer enorme quando o sofrimento daquela imobilidade era retirado junto com as correntes: o grande prazer está na dependência da dor ou sofrimento proporcional; não é possível pensar um grande sofrimento sem um grande prazer. Mas esse comentário vem a respeito do quê? Tentamos através da compreensão da relação entre os opostos (dor/prazer, pessimismo/otimismo) determinar de forma incompleta, mas determinar, o motivo de um certo pessimismo (em relação à arte) nascido na Alemanha do entre guerras e que encontrou muitos seguidores depois da guerra: a completa incompatibilidade entre arte e a sua reprodução, comercialização... A arte deveria ser pura...como que vinda dos deuses!
A belé epoqué foi realmente uma época aristocrática! A arte ainda era para poucos, a grande pintura e seus autores ainda gozavam de reputação sem limites, a sua genialidade era cultuada como dádiva dos deuses. Mas o fim da primeira grande guerra marca profundamente o mundo europeu e, principalmente, o mundo da arte. Foi com enorme pessimismo que aquele mundo aristocrata via a disseminação das novas formas de reprodução da arte em geral, da música e da pintura em particular. Adorno chega a dizer que a obra de arte não era mais possível e que a indústria e a industrialização seriam fatores para o fim da arte. Mas qual a raiz de tamanho pessimismo? A Alemanha viveu um período fabuloso no século XIX. Parecia que os caminhos e principalmente as finalidades da civilização ou da cultur passavam pela Alemanha. Sua história, seu ambiente intelectual, sua economia passavam a impressão de trilhar um caminho de sucesso irreversível.
Um otimismo sem limites quanto ao fim da cultura e da civilização se apoderaram da Alemanha, mas o desfecho da primeira guerra parece que fez a balança pender para o lado oposto, ou seja, um pessimismo igualmente sem limites se apoderou de grande parte da própria filosofia alemã. Por esse motivo, o cinema, que não pode ser pensado sem uma forma de industria, não era um objeto digno. Da mesma forma, o Jazz com a sua releitura de escalas européias, com a sua dependência de formas de difusão em grande escala, como o rádio e o disco, era considerado algo menor, “apenas uma vulgarização e massificação....”. Mesmo que na superfície se tenha afastado uma parte dessa maneira de ver, algo ainda sobra. A arte ainda é vista como algo para poucos senão no consumo pelo menos na produção. A boa arte é erroneamente atribuída apenas à genialidade e, portanto, como algo que deve ser colhido quando aparece, mas não cultivado.
Como em muitos campos, podemos perceber que também na arte e na educação, algo diferente acontece no Acre. Os recentes acontecimentos de violência nos mostram como a falta de investimento em educação, arte e cultura pode reverter-se em falta de perspectiva e criar toda uma geração facilmente recrutável pelo crime... Em sentido inverso, percebemos os grandes investimentos em educação (um professor de educação média no Acre ganha mais que seus colegas do sudeste), em cultura (os museus e casas de cultura estão sendo reformados e em funcionamento) e arte (as fundações de fomento à cultura como a Elias Mansur e a Garibaldi Brasil), no estado do Acre, são a demonstração de que há uma visão de longo prazo não apenas para a economia, mas para as pessoas e sua cultura. Podemos dizer que a estrutura de cultura e educação aqui ruma para atingir patamares elevados. Aqui não se espera que outros façam para depois imitar e, portanto, existe a intenção de criar modelos e não apenas importa-los.
A arte, a cultura e a educação, como mediação entre ambas, são, sem dúvida, meios de desenvolvimento em vários sentidos: o espírito crítico se amplia, uma parte da violência é redirecionada, o turismo se fortalece, mas principalmente se agrega valor econômico. Para que isso se acentue, a sua produção deve ser massificada, a sua comercialização e difusão devem ser acessíveis. A arte deve ser uma alternativa de vida para um número cada vez maior: professores de música, pintura, dança; músicos, pintores, dançarinos; empresários de discos, livros, etc... Os maiores destinos turísticos do mundo são exatamente aqueles em que houve em algum período uma estupenda produção cultural. Devemos tratar a arte e a cultura como plantas que devem ser cuidadosamente cultivadas e não, como é costume no Brasil, apenas como plantas num terreno baldio que nunca se pensa cultivar, mas apenas colher. Esse cultivo sistemático não tem paralelo no Brasil, pois o que temos (no sudeste) é o cultivo isolado e episódico. Um país com a riqueza musical como a nossa nunca pensou em educação musical nas escolas para potencializar e fortalecer nossas aptidões. Fazer pela primeira vez, ou seja, andar na frente tem seus custos e riscos, mas a estrutura física (no Acre) está em grande parte pronta, a próxima fase é o material humano...
Escrito por Paulo Pinheiro da Silva às 01h03
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Desserviço à filosofia
Para alguns a filosofia nada mais é do que ideologia. Um sistema filosófico, um autor de filosofia, para esses incautos leitores, só valem como um certo número de afirmações que devem ser assumidas e defendidas ou refutadas e afastadas. Estudar filosofia equivaleria ao prosélito trabalho de auto-convencimento, de preparação para pregação. Ensinar equivaleria a uma pregação. Claro que grande parte do desinteresse e descrédito da filosofia frente a um maior número de pessoas instruídas no Brasil se deve a esses maus advogados que na verdade querem a condenação de seu cliente!
A ausência de um curso público de filosofia em Rio Branco (existe lugar mais apropriado para a reflexão filosófica do que na universidade pública?) não seria um sintoma grave de que os possíveis defensores e propagadores da reflexão filosófica atuam na verdade em sentido contrário? O estado do Acre antes mesmo de se tornar uma potência econômica (a matriz energética que será gerada no rio madeira e a rodovia transoceânica vão trazer grande impulso econômico para o Acre), desponta no Brasil como fonte de uma forma de pensar única, que inverte um sentido que estava incrustado na concepção de desenvolvimento desde a colonização.
O preservacionismo existe na Europa muito antes do que aqui, mas aqui é o único caso em que a preservação se torna um imperativo de governo sem que grande parte dos recursos naturais tenha desaparecido. Em outras palavras, aqui a preservação tem um sentido próprio, pois na Europa a preservação é mais recuperação do degradado que preservação. Aqui, pelo contrário, há muito o que preservar e por isso o Acre se torna um caso único em que se tenta preservar e desenvolver, em que se pensa duas coisa opostas na forma tradicional de pensar, mas que podem ganhar outro significado que não implique a contradição.
Esse modo de pensar faz com que, aqui, existam condições excepcionais para o aparecimento de uma filosofia própria, mas alguns trabalham de forma febril contra isso, pois, acreditam eles, “se um curso de filosofia surgisse na universidade pública se tornaria transparente o mal que se tem feito, o desserviço à filosofia que se tem prestado”. Que importa a eles que o desenvolvimento intelectual do estado do Acre seja prejudicado! O que importa é preservar o espaço político e institucional para que eles possam continuar detratando a filosofia com sua péssima docência!
A filosofia é sintética por natureza! Mas o que significa isso? Ela cria valores, conceitos, formas de ver para alguns no presente, para muitos no futuro. Mas eles pensam que a filosofia se aprende e se ensina apenas com manuais, ou seja, analiticamente de forma de se parte de algumas afirmações dogmáticas que devem ser memorizadas. A síntese é a formação do novo, a análise é a compreensão do velho. A filosofia passada tem um valor inestimável quando procuramos nela a origem de síntese, de formas de ver com a mente e depois com os olhos. O importante no estudo e ensino de filosofia é um certo rearranjo dos conceitos, é o surgimento de outros significados que a articulação de conceitos nos permite ver. Os conceitos em filosofia estão sempre numa malha de conceitos.
Da mesma forma que hoje nós sabemos que os animais só vivem dentro de um ecossistema, em relação com outros animais, com a flora, com um regime de chuvas, de seca, ou seja, que aquilo que uma espécie é não pode ser apreendido pela simples dissecação do corpo morto e isolado num laboratório, da mesma forma, os conceitos filosóficos não podem ser entendidos de forma isolada, pelo seu significado de dicionário, de manual de vulgarização. Esses conceitos são justamente a tentativa de fornecer um outro significado novo, mais preciso e útil. Retirar esses conceitos da malha em que foram forjados e onde preservam um sentido próprio, para colocá-los isolados num manual ou num dicionário equivale a considerar biólogos aqueles que guardam bichos empalhados.
O Brasil ainda é um grande indeterminado. Para aquilo que somos, para aquilo que estamos sempre sendo e não sendo não há ainda conceitos. Quando os europeus conheceram pela primeira vez uma anta, eles não tiveram formas de pensar apropriadas para dizer o que era aquilo e procuraram traduzir o que viam através de formas anteriores de pensar, ou seja, “é um animal entre o elefante e o boi”. Conosco acontece algo parecido, pois quando queremos nos reduzir às nossas influências passadas e nos consideramos como um composto e não uma mistura, ou seja, quando acreditamos que somos apenas a sobreposição entre as três influências étnicas fazemos algo de parecido. Reduzimos o que somos ao que nossos antepassados eram. Não somos nada de determinado porque somos e não somos muita coisa, porque temos diante dos nossos próprios olhos tanto pudor e auto-ilusão que nos recusamos a ver o que somos e preferimos muitas vezes uma aparência bem forjada e decorada do que esse saco sem fundo que na verdade somos. Todos os povos são misturas, pois a semelhança é apenas fornecida pela distância e pela falta de acuidade no olhar (no limite nada é idêntico a nada), talvez todos os povos sejam também sacos sem fundo, mas para nós aquela ilusão de substância e de identidade absoluta é um preconceito mais nefasto. Muitas forças puxam o Acre para trás (dizendo o contrário naturalmente), mas as pessoas sabem que isso não é mais possível e que as velhas formas de pensar devem ficar na lembrança...
Escrito por Paulo Pinheiro da Silva às 11h54
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